Análise interseccional da caminhabilidade em Belo Horizonte sob uma perspectiva racial e de gênero

Autores

  • Alícya David Ferreira Alves Universidade de São Paulo image/svg+xml
  • Roberta Consentino Kronka Mülfarth Universidade Federal de Sergipe image/svg+xml

DOI:

https://doi.org/10.17271/23178604134820256079

Palavras-chave:

Caminhabilidade, Gênero, Raça, Interseccionalidade

Resumo

Objetivo -  O manuscrito objetiva a avaliação da caminhabilidade na área planejada de Belo Horizonte, a partir da comparação entre a aplicação do Índice de Conforto Ergonômico do Pedestre (ICEP), elaborado por Albala (2022), com a percepção popular obtida por questionário. Complementarmente, desenvolve-se um estudo na microescala na quadra onde residiu parte da família da autora, articulando uma dimensão de memória à análise urbana. O artigo também incorpora recortes de gênero e raça, evidenciando como esses marcadores influenciam a experiência do caminhar e tensionam os limites de avaliações estritamente técnicas. Os objetivos específicos são: Aplicar o ICEP na área planejada de Belo Horizonte utilizando bases de dados urbanas; Desenvolver e aplicar um questionário online para coleta da percepção popular sobre caminhabilidade, considerando variáveis sociodemográficas; Analisar criticamente os índices quanto à ausência de indicadores relacionados a gênero e raça; Comparar criticamente os resultados dos dois índices usados, indicando a diferença da percepção popular da investigação técnica; Realizar um estudo na microescala na quadra onde residiu a família da pesquisadora, comparando fotografias antigas e atuais; Integrar a narrativa familiar como elemento ilustrativo das dinâmicas de exclusão urbana em Belo Horizonte; Reforçar o entendimento e a importância do caminhar como modal prioritário na tomada de decisão de políticas públicas de mobilidade urbana; Contribuir com diretrizes, na escala do desenho urbano, a partir da revisão do Plano Diretor de BH.

Metodologia - O manuscrito foi realizado a partir de uma abordagem qualitativa e quantitativa, combinando métodos técnicos de análise espacial com instrumentos de investigação da percepção subjetiva, a fim de compreender, as condições de caminhabilidade na área planejada de Belo Horizonte e suas relações com marcadores sociais de gênero e raça. A primeira etapa consistiu no levantamento e sistematização de bibliografia sobre caminhabilidade, direito à cidade, raça, gênero e planejamento urbano. A partir desse referencial, definiu-se um conjunto de procedimentos metodológicos voltados à análise da caminhabilidade na área interna da Avenida do Contorno, núcleo do projeto original da capital mineira. A segunda etapa envolveu a aplicação do Índice de Conforto Ergonômico do Pedestre (ICEP), desenvolvido por Albala (2022), com adaptações para a área estudada. Na sequência, a pesquisa seguiu com a elaboração e aplicação de um questionário estruturado voltado a frequentadores e moradores da região central e centro-sul. O instrumento foi construído com base em 27 indicadores de caminhabilidade formulados por Carvalho (2018), organizados em forma de afirmações com escala Likert. As perguntas buscaram captar a percepção dos participantes sobre conforto, segurança, atratividade e acessibilidade dos espaços, além de questões sociodemográficas, permitindo análises interseccionais. Esta coleta de dados foi complementada por entrevistas abertas com duas mulheres que residiam na área planejada de Belo Horizonte antes de serem deslocadas para regiões periféricas. A análise dessas narrativas foi articulada à leitura espacial da quadra original onde moravam, com apoio de imagens históricas e atuais feitas através de visitas a campo.  O estudo avançou com a análise comparativa entre os dados do ICEP e as percepções coletadas via questionário. Esse confronto permitiu observar convergências e divergências entre a leitura técnica, a percepção popular e a análise das memórias da caminhabilidade, com destaque para os atravessamentos de raça e gênero. A triangulação dos dados revelou elementos não captados pelos indicadores convencionais, reforçando a importância de abordagens sensíveis à desigualdade urbana.

Originalidade/relevância - O artigo integra infraestrutura urbana, percepções sociais e recortes interseccionais de gênero, raça e pertencimento territorial na avaliação da caminhabilidade, dimensões pouco contempladas em metodologias tradicionais. Contribui para o debate sobre direito à cidade e justiça urbana e territorial, a partir de uma abordagem crítica que articula elementos técnicos e experiência cotidiana, ampliando a compreensão de mobilidade urbana e orientando políticas equitativas.

Resultados - Do ponto de vista técnico a aplicação do ICEP resultou em desconforto leve, mas com um contraste espacial. Já a percepção popular, trazida pelo questionário, revelou um resultado mais crítico, sobretudo entre mulheres e pessoas negras, que associaram a insegurança à iluminação precária e à ausência de pessoas nas ruas. A comparação dos dois resultados demonstra a limitação de avaliações estritamente técnicas, que tendem a invisibilizar desigualdades sociais e identitárias. O estudo da Rua Curvelo, por sua vez, reforçou este quadro ao evidenciar como processos de segregação racial e valorização imobiliária transformaram o espaço.

 Contribuições teóricas/metodológicas - O estudo elucida que a caminhabilidade não pode ser compreendida apenas por indicadores técnicos ou a partir de um sujeito neutro e universal, sendo fundamental incorporar percepções sociais e recortes interseccionais. De maneira teórica, evidencia o caminhar como prática social e política, reforçando a necessidade de políticas urbanas e avaliações que considerem experiências subjetivas. Metodologicamente, a integração entre ICEP, questionário popular e estudo na microescala permite identificar lacunas nos instrumentos tradicionais.

Contribuições sociais e ambientais - O artigo destaca que a caminhabilidade não se reduz à infraestrutura, implicando questões de justiça urbana e direito à cidade. A integração metodológica denota as lacunas nos indicadores técnicos e as desigualdades persistentes. Nesse contexto, elementos ambientais, como arborização, sombra e continuidade de calçadas,  impactam no conforto e na segurança, indicando que políticas urbanas devem articular infraestrutura, equidade social e qualidade ambiental para promover cidades mais justas e sustentáveis.

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Publicado

05.12.2025

Edição

Seção

Artigos

Como Citar

ALVES, Alícya David Ferreira; MÜLFARTH , Roberta Consentino Kronka. Análise interseccional da caminhabilidade em Belo Horizonte sob uma perspectiva racial e de gênero. Periódico Técnico e Científico Cidades Verdes, [S. l.], v. 13, n. 48, 2025. DOI: 10.17271/23178604134820256079. Disponível em: https://publicacoes.amigosdanatureza.org.br/index.php/cidades_verdes/article/view/6079. Acesso em: 17 jan. 2026.