A Norma e o Corpo
A percepção multissensorial como parâmetro de acessibilidade para avaliação e projeto de Espaços Públicos
Keywords:
Acessibilidade nos espaços públicos, Multissensorialidade, NBR 9050Abstract
Objetivo – Analisar a NBR 9050 à luz da abordagem multissensorial, buscando contribuir para o projeto de espaços mais inclusivos.
Metodologia – O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa de natureza exploratória, desenvolvida a partir de uma abordagem teórico-crítica fundamentada em revisão bibliográfica sobre acessibilidade nos espaços públicos, antropometria, percepção e experiência espacial no ambiente construído. Como procedimento metodológico complementar, realizou-se a análise crítica comparativa da ABNT NBR 9050 em suas versões de 2015 e 2020, buscando compreender de que forma os parâmetros estabelecidos pela norma estruturam a concepção de acessibilidade e suas relações com a experiência sensorial dos usuários nos espaços.
Originalidade/relevância – A pesquisa insere-se no debate crítico acerca dos limites das abordagens normativas da acessibilidade, evidenciando a predominância de referenciais antropométricos e dimensionais na estruturação de parâmetros técnicos que orientam o planejamento e o projeto do ambiente construído. Embora essas diretrizes tenham desempenhado papel fundamental na ampliação das condições de acesso físico, observou-se que grande parte das análises sobre normas técnicas permanece centrada em aspectos funcionais e dimensionais, havendo ainda menor exploração das dimensões perceptivas e experienciais da relação entre indivíduo e espaço, com isso, o estudo busca contribuir para o aprofundamento desse debate ao examinar a centralidade de critérios estritamente métricos na concepção da NBR 9050, propondo uma reflexão que considere a complexidade da experiência humana no ambiente construído.
Resultados – Os resultados indicam que a ABNT NBR 9050 representa um avanço na promoção da acessibilidade ao estabelecer parâmetros técnicos voltados ao uso, circulação e permanência nos espaços públicos. Contudo, a análise comparativa entre as versões de 2015 e 2020 evidencia que sua estrutura normativa permanece predominantemente orientada por critérios antropométricos e dimensionais, mantendo a lógica métrica como eixo central da concepção da acessibilidade no ambiente construído. Embora a norma incorpore diretrizes relacionadas à comunicação, sinalização e orientação espacial, esses aspectos são abordados de forma fragmentada e concentrados somente em dois sentidos, enquanto a discussão teórica fundamentada na abordagem multissensorial indica que essa estrutura normativa ainda não contempla de maneira integrada a complexidade da experiência sensorial, cognitiva e perceptiva dos indivíduos na relação com os espaços públicos.
Contribuições teóricas/metodológicas – A pesquisa contribui para o avanço das discussões sobre acessibilidade ao articular o debate normativo com abordagens teóricas que compreendem o espaço a partir da experiência sensorial e da relação entre corpo e ambiente. Ao aproximar contribuições da fenomenologia da percepção, da geografia humanista e da psicologia ambiental na análise da normatização técnica, o estudo propõe uma leitura crítica da acessibilidade que ultrapassa a dimensão estritamente funcional, evidenciando a relevância de considerar dimensões perceptivas, cognitivas e multissensoriais no planejamento e no projeto do ambiente construído.
Contribuições sociais e ambientais – Ao discutir a acessibilidade a partir da diversidade sensorial e da relação entre indivíduo e ambiente, a pesquisa contribui para ampliar as reflexões sobre práticas projetuais mais inclusivas e sensíveis à experiência humana no ambiente construído, incentivando abordagens que considerem diferentes formas de percepção, orientação e interação com o espaço. Nesse contexto, o estudo reforça a importância de conceber ambientes que favoreçam autonomia, legibilidade espacial e pertencimento social, ao mesmo tempo em que dialoga com princípios de qualidade ambiental e justiça espacial, contribuindo para a promoção de espaços e cidades mais equitativos, compreensíveis e socialmente inclusivos.
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