As duas faces da Capital
Colonialidade e Produção Desigual do Espaço na Orla do Aeroporto e Parque dos Poderes em Campo Grande/MS
Keywords:
Produção do Espaço, Colonialidade do Poder, Desigualdade SocioespacialAbstract
Objetivo: Analisar a produção social do espaço em Campo Grande/MS por meio do contraste entre a Orla do Aeroporto e o Parque dos Poderes.
Metodologia: Pesquisa de abordagem qualitativa e natureza analítico-comparativa, fundamentada na teoria da produção do espaço de Henri Lefebvre e na perspectiva da colonialidade do poder de Aníbal Quijano. Os procedimentos metodológicos incluem pesquisa bibliográfica e documental, análise espacial e morfológica dos recortes e comparação analítica estruturada em critérios de função urbana, marco normativo e valorização territorial.
Originalidade/relevância: O estudo insere-se no nicho teórico que investiga a aplicação do conceito de colonialidade do poder no planejamento urbano de cidades médias brasileiras. Sua relevância reside em tensionar a neutralidade das normas técnicas (como as restrições aeroportuárias), revelando como estas, somadas ao investimento seletivo do Estado, consolidam eixos de prestígio em detrimento de áreas funcionais, aprofundando a segregação urbana.
Resultados: Identificou-se uma dicotomia na gestão urbana: enquanto o Parque dos Poderes (Leste) é tratado como um "espaço-monumento" de preservação e prestígio, com vasta área verde (255 ha) e investimento estético, a Orla do Aeroporto (Oeste) é reduzida a um "espaço-fluxo" técnico e funcional, com área de lazer limitada (1,5 ha). A Avenida Afonso Pena atua como o eixo que simultaneamente conecta e segrega essas realidades, evidenciando que a natureza e o "vazio" urbano são valorizados de forma desigual conforme o interesse do capital imobiliário.
Contribuições teóricas/metodológicas: O trabalho contribui ao articular a geografia crítica com os estudos decoloniais, oferecendo um modelo de análise comparativa que integra parâmetros técnicos de zoneamento (ZEPA e ZEIA) com a dimensão da "acessibilidade simbólica". Metodologicamente, demonstra a eficácia do uso de marcos normativos como indicadores de intencionalidade política na produção da desigualdade.
Contribuições sociais e ambientais: O estudo ressalta a necessidade de uma governança multinível que supere a visão da zona Oeste apenas como área de risco ou logística, promovendo o direito à cidade e a justiça socioambiental. Ao denunciar a seletividade dos investimentos em áreas verdes, o trabalho reivindica o trânsito do planejamento urbano em direção à lógica do "espaço-vivido", garantindo que a preservação ambiental e o lazer de qualidade não sejam privilégios de enclaves de alto poder aquisitivo.
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