Urbanização, Vulnerabilidade Institucional e Inundações em Mato Grosso
Análise sob a perspectiva da construção do social do desastre
Keywords:
Resiliência urbana, Construção social do desastre, Planejamento territorialAbstract
Objetivo – Analisar as inundações urbanas recorrentes em municípios do estado de Mato Grosso à luz da teoria da construção social do desastre, demonstrando que tais eventos não decorrem exclusivamente da intensificação pluviométrica associada às mudanças climáticas, mas sobretudo da fragilidade institucional na atualização, integração técnica e aplicação efetiva dos instrumentos de planejamento urbano.
Metodologia – O estudo adota abordagem qualitativa de natureza exploratório-analítica, fundamentada em pesquisa documental e bibliográfica. Foram analisados dados oficiais do Serviço Geológico do Brasil, informações do Censo Demográfico 2022 do IBGE, registros jornalísticos regionais e legislação urbanística aplicável, articulados a referencial teórico internacional sobre vulnerabilidade, hidrologia urbana e resiliência climática.
Originalidade/Relevância – O artigo insere-se no debate internacional sobre urbanização e risco, ao aplicar a perspectiva da construção social do desastre ao contexto do Centro-Oeste brasileiro, região ainda pouco explorada na literatura científica global. O estudo contribui para preencher lacuna analítica ao articular vulnerabilidade institucional, planejamento territorial e governança urbana como dimensões estruturantes da produção social do risco hidrológico.
Resultados – Os achados indicam que a vulnerabilidade hidrológica nos municípios analisados decorre menos da ausência formal de instrumentos normativos e mais da insuficiente atualização técnica, integração com diagnósticos científicos e fiscalização efetiva dos Planos Diretores e das legislações de uso e ocupação do solo. Observa-se que a impermeabilização crescente do solo, associada à ocupação de áreas ambientalmente frágeis, potencializa o escoamento superficial e amplia a recorrência de alagamentos urbanos.
Contribuições teóricas/metodológicas – O estudo reforça a aplicabilidade da teoria da construção social do desastre à análise da urbanização brasileira contemporânea, evidenciando que o risco urbano é produzido por decisões institucionais cumulativas. Metodologicamente, integra análise jurídico-institucional, dados técnicos e literatura internacional, ampliando o diálogo entre planejamento urbano, governança climática e desenvolvimento regional.
Contribuições sociais e ambientais – A pesquisa evidencia a necessidade de incorporação obrigatória de mapeamentos de risco e estudos hidrológicos aos instrumentos normativos municipais, fortalecendo a governança territorial e a prevenção de desastres. Ao destacar a dimensão socioambiental das inundações, o estudo contribui para o debate sobre justiça socioambiental, proteção da população vulnerável e construção de cidades mais resilientes frente às mudanças climáticas.
References
AHERN, Jack. From fail-safe to safe-to-fail: sustainability and resilience in the urban world. Landscape and Urban Planning, v. 100, n. 4, p. 341–343, 2011. DOI: https://doi.org/10.1016/j.landurbplan.2011.02.021.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
BRASIL. Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992. Dispõe sobre as sanções aplicáveis em virtude da prática de atos de improbidade administrativa. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 3 jun. 1992.
BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal e estabelece diretrizes gerais da política urbana. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 11 jul. 2001.
CHAN, Faith Ka Shun et al. Sponge City in China—A breakthrough of planning and flood risk management. Landscape and Urban Planning, v. 179, p. 1–10, 2018. DOI: https://doi.org/10.1016/j.landurbplan.2018.07.005.
DIÁRIO DE CUIABÁ. Serviço Geológico do Brasil identifica 147 áreas de risco em Mato Grosso. Cuiabá, 2025. Disponível em: https://www.diariodecuiaba.com.br. Acesso em: 23 fev. 2026.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico 2022. Brasília: IBGE, 2022.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Cambridge: Cambridge University Press, 2022.
LAVELL, Allan. Desastres y desarrollo: hacia un entendimiento de la construcción social del riesgo. San José, Costa Rica: LA RED – Red de Estudios Sociales en Prevención de Desastres en América Latina, 1996.
MARICATO, Ermínia. O impasse da política urbana no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2001.
NATIVA NEWS. Temporal provoca alagamentos e danos estruturais em Colíder. 2025. Disponível em: https://www.nativanews.com.br. Acesso em: 23 fev. 2026.
PRIMEIRA PÁGINA. Chuvas intensas levam municípios a decretar emergência em Mato Grosso. 2025. Disponível em: https://www.primeirapagina.com.br. Acesso em: 23 fev. 2026.
REPORTER MT. Alerta de chuvas intensas e registros de alagamentos em Cuiabá. 2026. Disponível em: https://www.reportermt.com.br. Acesso em: 23 fev. 2026.
ROLNIK, Raquel. Guerra dos lugares. São Paulo: Boitempo, 2015.
SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL (SGB). Relatório de áreas de risco em Mato Grosso. Brasília: SGB, 2025.
TUCCI, Carlos E. M. Gestão da drenagem urbana. Brasília: CEPAL/IPEA, 2012.
YIN, Dong et al. Sponge city practice in China. Journal of Cleaner Production, v. 280, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2020.124963.
Downloads
Published
Issue
Section
License
Copyright (c) 2026 Scientific Journal ANAP

This work is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International License.



